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Roteiro de Leitura – Viagens de Gulliver

Maio 15, 2008

Contextualização Histórica

 

            Na época em que a obra foi escrita, o Reino Unido da Grã-Bretanha era formado pela Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda.
            Os Irlandeses não eram tratados como os demais integrantes, pois sua população era de origem celta e sua religião era católica. Embora tivessem o direito de votar, por serem católicos não podiam ter cargos públicos. A população vivia na mais sórdida miséria. Em 1666 foi vedada a exportação de gado para o reino e começou a criação de carneiro, sendo que o comércio entre as duas ilhas caiu consideravelmente. Como se não bastasse, em 1699, uma outra lei decretada pela Inglaterra proibia a exportação para outros mercados do mundo, tudo sob uma política escravizadora, fazendo com que milhares de fabricantes abandonassem o país, enquanto a Coroa Inglesa devorava a Irlanda.

            Em 1694, o novo regime, do qual John Locke foi teórico “Ensaio sobre o Governo Civil -1690”, foi confirmado pelo Ato do Estabelecimento, que assegurava a sucessão de Guilherme III, à sua cunhada Rainha Ana. As idéias dos filósofos iluministas começam a ser difundidas na Inglaterra e eram: Separação dos Três poderes, a liberdade de comércio e o direito de propriedade; acreditavam na razão humana como a forma autêntica para a compreensão da sociedade, sendo ela a fonte de todo o conhecimento.

Havia dois grupos políticos:
1- Tories é o nome do grupo que deu origem ao Partido Conservador.
2- Whigs formavam o grupo que originou o Partido Liberal.

Os Tories defendiam as prerrogativas do Rei e os privilégios da Igreja Anglicana e o suporte dos Whigs vinha dos setores da aristocracia e comerciantes de Londres, estes advogando uma política de maior tolerância com católicos e não-conformistas (presbiterianos).

 

Ideologia

Em “Viagens de Gulliver”, Swift procura mostrar, através da sátira, a vida política e social da Inglaterra no século XVII. Embora a intenção alegórica mais direta e pessoal esteja relacionada com a política britânica, sua sátira visa especialmente à humanidade.
            Torna-se evidente a valorização dos padrões civilizados da época: mentalidade burguesa que se consolidaria logo mais no século XIX com o Romantismo.
            O Humanismo Iluminista está evidente, desde o início, na ênfase dada por Swift à cultura, ao saber. No entanto, o elemento mais valioso que se encontra em “Viagens de Gulliver” é a visão da humanidade de vários pontos de vista:

  • O primeiro é de um rei com superioridade física que vê a humanidade ridiculamente pequena. Swift encontra aqui a possibilidade de exercer a implacável tirania de seu espírito sobre os homens, mostrando sua própria superioridade;
  • O segundo é o de um ser físico inferior que vê a humanidade grotescamente grande. Tudo o que provocava repugnância ou rancor em Swift mostra-se aí de maneira descomunal, como a sua irreprimível náusea pelo corpo humano, o que pode estar relacionado ao fato de não ter se casado, conservando a distância todas as mulheres que tentaram se aproximar dele;
  • O terceiro é o ponto de vista do senso comum, segundo o qual a vasta maioria da humanidade mostra-se louca e perversa. Satiriza os cientistas e filósofos dedicados às altas pesquisas científicas, sem nenhuma preocupação com sua aplicação prática, o que os leva a viverem como verdadeiros imbecis;
  • O quarto ponto de vista é o de um animal racional que vê a raça humana inteira como irracional e bestial. Mostra a enorme superioridade dos eqüinos em relação aos homens.

A inegável crueldade que transparece da linguagem satírica escolhida por Swift, mais do que atacar a Inglaterra da época, denunciava as misérias morais da humanidade.
            Em 1725, o autor escreveu a seu amigo Alexander Pope, afirmando que, com “Viagens de Gulliver” pretendia agredir o mundo, não diverti-lo. Estava coligindo dados para desmascarar o falso conceito do homem como animal: “O homem é capaz de ser racional, porém não se esforça; ao contrário, parece comprazer-se no cultivo dos instintos e nada de bom constrói. Odeio esse animal chamado homem, embora ame com todo coração a Pedro ou a João”.
            Além de desmascarar a humanidade e demolir seus falsos valores (seu objetivo principal), Swift visava ainda ridicularizar a moda dos livros de viagem, que na época, se transformaram numa obsessão da burguesia.
            Outro aspecto importante refere-se a episódios simbólicos como no episódio do incêndio do palácio real, ou noutro, do início da narrativa, em que a multidão contempla alvoroçada a corrente de urina do homem montanha descendo terra afora como a caudal de um imenso rio; depara a psicanálise uma das manifestações do infantilismo sexual de Swift, em sua desenvolta forma de agressividade. Outro episódio em que os soldados, quando passavam sob as pernas de Gulliver, reparavam espontaneamente para o enorme volume de seus órgãos genitais, é interpretado pela psicanálise como uma fantasia compensatória, proveniente do medo da impotência que teria dominado Swift, impedindo-o de realização integral como homem.

Muitos outros aspectos relativos à sátira que foi aplicada na época podem ser observados.
            Um exemplo é a ironia de Swift sobre a intolerância humana, com base em convicções de importância discutível, como no caso dos partidos políticos, Tramecksan e Slamecksan de Liliput, em que não é difícil surpreender uma alusão aos partidos Ingleses dos Whigs e Tories. As divergências entre os Intransigentes partidários distinguiram-se pela adoção, uns de saltos altos e outros de saltos baixos (Lilliput).
            Outro exemplo é o de Luggnagg onde viviam os “struldbrugs”, os imortais, que alerta para as misérias gerais da vida humana. Swift convertera a palpitação pela vida imortal num espetáculo horrível e ultrajante para a espécie: “cada homem deseja uma longa vida, mas nenhum homem quer ser velho” (Thoughts on .Various Subjects, Prose, de Swift).
            Pode-se, ainda, citar o comentário de George Orwell que viu a comunidade de Houyhnhnms como um estado totalitário, com os Yahoos desempenhando o papel de Judeus na Alemanha nazista. A organização social e política dos “Houyhnhnms” se baseava numa espécie de sistema de casta racial, pois não existia o vocabulário “opinião” em sua linguagem e nem havia entre os indivíduos nenhum sinal de diferença de sentimentos.
            As quatro viagens formam uma série em que a visão vai se tornando cada vez mais escura: representam estágios da desilusão de Gulliver, que vai se tornando tão obcecado pelas faltas genéricas da humanidade que não consegue mais apreciar as virtudes dos indivíduos. Como Gulliver movimenta-se através dessas visões do mundo, seu próprio caráter e atitudes mudam. E é Swift quem levanta a questão: de que maneira um ser inteligente e sensível reage ao crescente conhecimento da natureza humana?
            A reação óbvia é tornar-se um misantropo (desacreditando do homem), cada vez mais obcecado pelo que há de errado com as pessoas. E o que Gulliver fez. Swift por outro lado, reage de maneira diferente, pois estava preparado para ser mais tolerante porque não esperava que as pessoas fossem racionais.

 

Discuta com seu grupo:

  1. Quais os problemas vividos pela sociedade da época que o autor faz referência em seu livro? A sociedade contemporânea ainda possui esses problemas?
  2. Se você fizesse uma outra viagem, a fim de tratar de alguma questão social do Brasil, para qual lugar iria? Como seriam os personagens da sua história?
  3. Desenhe um mapa das viagens de Gulliver. Procure ilustrar cada um dos lugares pelos quais Gulliver passou.
  4. Quais os valores trabalhados no livro? O que a Bíblia diz sobre isso?

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