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Conto – Leitura para 12/09

Agosto 25, 2008

DRAMA NUM AQUÁRIO – ÉRICO VERÍSSIMO

Eu gostava de observar aquele aquário de vidro azulado onde um peixinho dourado de nacionalidade japonesa fazia estranhas evoluções, traçando n’água com o seu corpo mole e ágil desenhos fugidios que lembravam os dos artistas de sua terra.

De dia a vidraça da janela da varanda se refletia na água do aquário; de noite era a grande lâmpada esférica e fosca do teto que se espelhava na água meio turva, dando a impressão de uma lua minúscula, feita especialmente para aquele lago redondo.

Um dia botaram no aquário um peixe azul do Amazonas. Era uma criatura de formato esquisito, cara feia e ar truculento. Sabia também fazer piruetas natatórias como Johnny Weissmmuller e houve um momento em que, descendo para o fundo num mergulho elegante, esbarrou no peixinho dourado. Pararam os dois e se fitaram. Vi rancor nos olhos de ambos. Falaram a língua inaudivel dos peixes e se disseram coisas horríveis.

E não houve mais paz no aquário. O que para mim fora antes um pathé-baby divertido em cima da mesa da sala, passou a ser uma arena de combate, um vaso de vidro bojudo, pequeno demais para conter o ódio de dois peixinhos decorativos.

O dourado, como morador mais antigo do aquário, achava que tinha todos os direitos. O azul dizia só reconhecer o direito da força e fazia vagas ameaças.

Disputaram certo dia uma migalha. O peixe azul após breve luta ficou com o troféu. O rival achou deselegante brigar por comida e fez uma retirada honrosa, saindo a nadar em serenas rabanadas e soltando (fazia sol na sala) centelhas de fogo.

Enquanto o peixe azul comia a migalha da vitória, o outro recitava discretamente a história da família. A sua gente morava nos melhores rios do Japão. O seu avô era o peixe predileto de um mandarim muito importante que o alimentava com as iguarias mais estranhas e delicadas da China. Seus antepassados todos eram ilustres; a sua ascendência se perdia nas cinzas dos séculos; e era certo que o mais remoto de seus ancestrais tinha nadado feliz nos rios do Paraíso Terrestre.

O peixe azul resmungou que não era nobre e que não acreditava nessas tolices de antepassados. Se tinha pais, não se lembrava. Achava até que nunca tivera avós.

Uma noite a luta foi violenta. Eu quis intervir. Cheguei tarde. O peixe dourado estava morto. Comecei a fazer reflexões amargas. Aquelas duas criaturas minúsculas, delicadas, coloridas, ornamentais também conheciam o ódio e a ambição, tinham o seu egoísmo e a sua maldade. Que se podia esperar então dos animais maiores?

Inclinei-me sobre o aquário e preguei um eloqüente sermão ao peixe assassino sobre a fraternidade e sobre o amor ao próximo. O peixe azul não me deu ouvidos. Nadava imperturbável, tentando talvez derrubar com uma cabeçada a vidraça que se refletia no vidro do aquário numa mancha luminosa e quadriculada.

Fiz os funerais do peixinho dourado. E nos dias que se seguiram, observando as pessoas da casa onde eu estava hospedado, compreendi que não tinha razão para censurar o monstrinho azul.

Eu via um marido que odiava a sogra e não vivia em paz com a mulher. Uma sogra que odiava o genro e não compreendia a filha. Uma filha que aborrecia a mãe. Uma copeira que declarava não poder viver sob o mesmo teto que abrigava a cozinheira. As criaturas não se entendiam. Havia disputas tremendas e um dia a mulher arranhou a cara do marido com unhas agudas e vermelhas. De manhã discutiam para ver quem lia primeiro o jornal. À hora do almoço disputavam com palavras ásperas e gestos brutos os melhores bocados. Os dois rapazes se atracavam porque, embora irmãos, pertenciam a partidos políticos inimigos, a clubes de futebol rivais, a sociedades recreativas adversas. Não havia paz naquele aquário de peixes grandes que não tinham nem ao menos o colorido alegre e a elegância de movimentos dos peixinhos do aquário menor.

Quiseram botar um peixe verde no aquário da sala. Pedi encarecidamente à senhora da casa que não fizesse isso. Era preciso que naquele lugar houvesse ao menos um cantinho onde morassem a paz e a serenidade. Assim o peixe azul ficou senhor do aquário. E, quando eu o imaginava no melhor dos mundos, descobri-o certa manhã morto, morto.

Compreendi, ao cabo de fundas reflexões, que os peixes, como os homens, precisam de luta para viver. Se não lutam, se não alimentam ódios, se não se agitam, como é que vão ter a certeza de que estão mesmo vivos?

A dona da casa me censurou:

– Está vendo? O senhor é o culpado. O coitadinho morreu de tristeza por falta de companheiro. Se me tivesse deixado botar o peixe verde…

Encolhi os ombros e fui buscar na minha estante um volume de poemas de São Francisco de Assis.

ROSAS NUM POTE VERDE – LIGYA FAGUNDES TELLES

Lá estão elas, lá estão elas. No alto da rampa, à esquerda de quem entra, na sala mais visitada desta 5ª Bienal, está o quadro. E no quadro, o pote. E no pote, as rosas: Rosas num pote verde.

Chegam as moças de calças compridas e olhos bistrados, acompanhadas de rapazes de cabelos em desalinho e suéter displicentemente atirado ao ombro.

Olham, olham tudo com uma expressão vagamente irônica, fazem observações divertidas e assim como vieram, no mesmo andar de eterna disponibilidade, passam. Chegam os intelectuais, silenciosos e compenetrados, levam a mão ao queixo, aproximam-se, afastam-se, apertam os lábios afeitos ao rito entre complacente e desdenhoso ante a ignorância dos visitantes em redor, “ali o que mais me exaspera é a burrice!…” Passam. Chegam os colegiais de meias grossas e uniforme azul e branco. Chegam irrequietos, falantes; depois, aos poucos, vão perdendo a alegria e é já em meio de uma total perplexidade que ouvem – a boca ligeiramente aberta, o olhar vazio – as explicações da monitora, moça tão esclarecida quanto modesta, tentando – e inutilmente – disfarçar a erudição com aquele jeito assim de quem pede desculpas, “mas é que eu sou mesmo tão culta!…” Também passam. Chegam os pais de família com a mulher de ar enfastiado e filhos de ar mais enfastiado ainda, as mãos enfurnadas nos blue jeans, o olhar infeliz, “estou com sede, mãe…” O pai promete-lhe uma coca-cola, “mas depois, ouviu bem? Agora vamos ver os quadros, vocês precisam desde cedo se ilustrar um pouco, também a vida não é só futebol…” E procura despertar o interesse da mulher: “Este, meu bem, é Van Gogh, considerado um dos melhores pintores do mundo. Foi um homem esquisitíssimo, chegou um dia – baixa o tom de voz – a cortar uma orelha para dar de presente à amante…”. O primogênito aproxima-se: “Cortou o quê?”

A mulher afasta-o, impaciente. Imagine se isso é conversa para criança! Suspira, cansada, e se apóia ao braço do marido, “andar nesta bienal com estes saltos; eu devia ter vindo com os sapatos de feira”. O homem insiste em exibir os fragmentos que lhe ficaram na memória de um artigo que leu sobre o pintor:

“Era meio louco; vivia solto pelos campos, pintando sem parar, até que um dia, num acesso mais forte, deu um tiro no peito…” Atalha-o a mulher, subitamente animada, ah! sim, lembrava-se agora, tinha visto o filme, “quem fez o papel foi aquele Kirk Douglas, não foi? Ele trabalhou com uma barba ruiva e um chapéu de palha desabado, estava feio demais, gostei mais dele quando trabalhou com a Silvaria Mangano naquela outra fita em que ele é um guerreiro…” O homem responde que não se lembra de nada. Está agora de mau humor, a mania que ela tem de não prestar a mínima atenção ao que ele diz. E o menino a se queixar de sede, “será que você não pode esperar um pouco, não pode?” Passam. Como os outros, como todos os outros, também eles passam.

Ficam as rosas. Ficam as tristes, as desesperadas rosas dentro de um pote verde. De que cor são elas? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Não poderei vos dizer. Ninguém, ninguém no mundo poderá vos dizer de que cor exatamente são essas rosas. Porque, se vistas de uma certa distância nelas prevalece o tom rosado, ao nos aproximarmos, veremos que há também muito vermelho coagulado nas corolas. E será preciso chegar um pouco mais perto para descobrirmos então o amarelo rompendo por entre o vermelho, e de mistura com o amarelo, laivos arroxeados e por entre os laivos, como num milagre, o branco que de tão branco tem reflexos azulados. Há todas as cores empastadas nas corolas atrozes e que saltam da tela num intumescimento de carne.

Rosas num pote verde. Tão simples, não? Tão inocente. Contudo, há mais dor nessas rosas do que no retrato do velho sentado numa cadeira, chorando. O velho tem o rosto tapado com as mãos e está chorando aquele choro silencioso que ninguém pode ouvir.

E, se esconde a face, não consegue esconder os pobres sapatos frouxamente desamarrados e que têm a mesma expressão da face descoberta. Pois nas corolas também expostas, no labirinto sem saída das corolas há mais tristeza ainda do que a tristeza mansa daqueles sapatos. É que no labirinto das rosas há uma procura feroz, desesperada. É que nas feridas das pétalas, nesse empastado rastro de tinta, de mistura com a fuga há uma busca. E os sapatos do velho chorando na cadeira já não buscam mais nada.

Rosas num pote verde. Aproximai-vos delas, aproximai-vos e vereis que as bordas das pétalas estouram como lábios gretados na mais cruciante das sedes: a sede do amor.

Ele era feio, pobre e só. Quis tanto amar, amou, mas justamente as criaturas amadas, se não o repeliram, fizeram-lhe mais mal ainda demonstrando compaixão. Buscou Deus, Ele devia estar na natureza, quis mesmo vê-Lo quando a cara vermelha, os olhos queimados – subia no topo das árvores e lá ficava como um girassol louco voltado para a luz.

Rosas num pote verde. Aproximai-vos delas e tereis o retrato do desespero do homem na solidão.

Aproximai-vos que essas não são rosas comuns. Atentai para suas pétalas, atentai, e vereis então que elas vertem sangue.

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